Thursday, October 26, 2006


Apresentação

Este livro não tem a menor pretensão de ser um tratado sobre o povo Xavante, muito menos um trabalho científico, antropológico ou jornalístico (apesar de minha formação em jornalismo). Meu Avô A´uwê (a´uwê significa índio - em xavante) é o relato de minhas três primeiras visitas a uma aldeia indígena. No caso, a aldeia xavante Wederã.

Em dois momentos distintos surgiu um personagem que foi determinante para o rumo de toda essa história. Especialmente para o rumo da minha vida. E, não por acaso, esse foi um dos xavantes mais importantes e influentes do século XX.

Assim, além de minhas viagens, também conto a história desse índio, o velho Apowe. O xavante foi um dos últimos povos nativos a entrar em contato com os warazu (não-índio - em xavante) e Apowe entrou para a história como o líder que protagonizou o encontro oficial de seu povo com o governo brasileiro. A vida desse cacique foi marcada por muitos outros episódios interessantes. Principalmente para nós, ocidentais warazu, que estamos tão distantes da terra e da natureza. Feitiçarias, espíritos, interações com os sonhos e tantos outros elementos não muito comuns para nós, são parte intrínseca da cultura e do cotidiano xavante.

Quando estive na aldeia, alguns desses elementos vieram à tona e pude presenciar e viver experiências fantásticas. As histórias que conto são fruto do que vivenciei e do que eles me contaram. Portanto, muitas interpretações para os fatos estão baseadas na ótica cultural do xavante. Há várias passagens que até hoje não sei explicar e que, provavelmente, jamais entenderei, mas transmito como aconteceram e as interpreto sob o ponto de vista Xavante.

Capítulo 1
Insatisfação

SÃO PAULO

As coisas não estavam boas. Eu morava em São Paulo, mais precisamente no Itaim-Bibi, e trabalhava na Vila Madalena. O descontentamento com o trabalho era tanto que apelidei o curto trajeto de 20 minutos entre o lar e a labuta de "via crucis". Eu era redator de uma produtora de multimídia e fazia historinhas e textos para crianças. Nada contra escrever para crianças. Mas o problema era que, em função dos prazos, preferiam que eu desenvolvesse histórias superficiais e banais ao invés de conteúdos mais elaborados, e isso me irritava e desestimulava profundamente.

Era junho de 2001 e as férias da faculdade estavam chegando. Aliás, a faculdade de jornalismo era outra atividade que não fazia muito sentido. Com exceção de pouquíssimas aulas interessantes, o restante não acrescentava absolutamente nada. Não por acaso era mais fácil me encontrar no bar do que na sala. Pelo menos a minha vida social era divertida - festas, churrascos, bebedeiras e viagens nos finais de semana. Porém, como redator, eu sentia um vazio muito grande. Tanto que precisei inventar um projeto para ter algum estímulo profissional e, por muito pouco, não filmei um curta-metragem que eu havia escrito. Infelizmente, pequenos detalhes me obrigaram a adiar a aventura.

Apesar do desânimo, algo maior me motivava: a paixão por escrever. Eu era novo, tinha 24 anos, e já havia trabalhado em alguns lugares. Minha curta carreira começou em março de 1995, na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, onde fui morar com meu pai e minha irmã. Ali estagiei e trabalhei como repórter esportivo em dois jornais, além de passar por uma agência de propaganda como assistente de atendimento (também conhecido como office-boy de luxo). Depois nos mudamos para Florianópolis, onde também trabalhei em propaganda, como assistente de atendimento e mídia. Em 1998, fomos para Curitiba e tive a minha primeira experiência como redator. Estagiei no departamento de criação de uma das principais agências do Paraná, a Z. Publicidade. De Curitiba retornei para São Paulo, minha cidade natal, onde trabalhei como redator em uma revista sobre animais e em duas agências de propaganda, até chegar à produtora de multimídia em que eu estava no final de 2000. Após esses primeiros anos de experiência, concluí que jamais seria feliz trabalhando em jornais, revistas, agências ou produtoras. Conclusão bastante desanimadora e preocupante para um redator, já que sem essas opções ficara bastante reduzido o campo de trabalho.

Com a proximidade das férias senti que deveria fazer algo, mas não sabia o que. O certo é que precisava dar um tempo, sair de São Paulo e tentar achar algum sentido para as coisas. Foi quando me lembrei de que minha mãe estava morando em Água Boa, no Mato Grosso. Eu não sabia exatamente o que ela fazia lá (e acho que nem ela), mas o certo é que estava na região central do país e tinha contato com alguns índios.

***
ÁGUABOA

Um pouco antes, em janeiro daquele mesmo ano de 2001, num domingo à noite, eu voltava de Peruíbe, litoral sul de São Paulo, quando meu pai me ligou no celular: "Filho, a que horas você vai chegar? Sua mãe já voltou de viagem e tem algumas novidades". Como conheço bem a minha família, principalmente minha mãe, a sra. Ana Maria de Carvalho Guimarães, sabia que ali tinha coisa. As hipóteses poderiam ser as mais variadas. "Bem, filho, decidimos que 16 anos depois vamos recomeçar o nosso casamento"; ou "Filho, a sua mãe decidiu virar astronauta e vai trabalhar na nasa". Nada me chocaria. Chegando em casa, os dois estavam na sala, absolutamente sorridentes. Como eu não via a minha mãe desde o Natal, ela fez uma grande festa. Eu havia passado apenas o final de semana fora. Já ela estava na estrada desde o dia 26 de dezembro. Viajara para Mato Grosso com os donos da empresa em que trabalhava. Nas andanças, eles conheceram algumas pessoas, alguns lugares e, quando passaram por Água Boa, minha mãe sentiu: "Aqui é o meu lugar. Preciso morar aqui". E era essa a tal novidade. Ela ia se mudar para Água Boa, onde, segundo a própria, tinha o céu mais bonito que já avistara na vida.


Claro que não foi uma decisão insensata, fruto de um mero desejo irracional. Dona Ana Maria já trilhava um caminho, digamos, espiritual, havia mais de 15 anos. Ela construiu uma interessante carreira de terapeuta corporal em São Paulo, e era extremamente respeitada tanto nas altas rodas sociais, como nas esotéricas e espirituais. Ironicamente, há pouquíssimos meses ela deixara boa parte disso de lado para entrar de cabeça num trabalho que lhe proporcionava bom salário, status e muito estresse, chegando a ser personagem de uma matéria da revista Cláudia que tinha o seguinte título: "Mulheres de Coragem - De Esotérica a Executiva". De repente, largou tudo para viver num local que, dois meses antes, nem saberia localizar no mapa.

Séculos atrás, Água Boa era habitada por índios. A partir da segunda metade do século XVII começou a ser explorada por algumas expedições e, no final da década de 50 do século XX, foi colonizada por famílias gaúchas. A cidade fica a 780 km a nordeste da capital do estado, Cuiabá. Como está próxima de algumas das seis reservas xavantes, o cotidiano de Água Boa é muito ligado aos índios. Não tanto pela influência que a cultura tradicional exerce, mas por problemas relacionados à disputa de terra.

Por intermédio de algumas pessoas que moravam na cidade, minha mãe acabou conhecendo alguns índios e identificando-se com o povo xavante. Aos poucos, esse relacionamento estreitou-se, principalmente com o índio Paulo Cipassé Xavante e sua mulher, Severiá. O fato de ambos falarem português e terem residido por muito tempo fora da aldeia, em cidades como Goiânia e Nova Xavantina, facilitou a aproximação e a convivência. Se por um lado minha mãe teve contato com um mundo desconhecido e misterioso para ela, por outro, também pôde acrescentar alguma coisa ao deles.

CIPASSÉ

Paulo Cipassé Xavante, mais conhecido como Cipassé, é descendente da linhagem xavante mais antiga. Quando ainda era garoto, no final dos anos 70, seu avô, Apowe, o mandou, junto a outros parentes, estudar no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. O objetivo era que essa nova geração (Cipassé tinha apenas 9 anos) passasse a conviver com os warazu (não-índios), para aprender sobre a cultura e, mais importante, para entender o modo como os brancos pensavam, agiam e viam o mundo. Cipassé adaptou-se a essa nova realidade e cresceu entre os brancos. Durante a década de 1980, aproveitando o acesso ao "mundo warazu" e a habilidade natural de se relacionar socialmente, ele teve papel importante na divulgação da cultura xavante e na discussão de assuntos ligados à questão indígena. Tanto que esteve em alguns encontros históricos, como o congresso do Banco Mundial sobre o Projeto de Desenvolvimento Econômico, em Washington, D.C., em 1988. Na Alemanha, esteve reunido com representantes do Governo Alemão, FMI e Organizações Ambientalistas em discussões sobre a queda do muro de Berlim e, ainda, na Conferência Internacional dos Povos Indígenas em Hokkaido, no Japão, entre outros acontecimentos de menor repercussão.




Não é novidade para ninguém que, desde a colonização e o início do contato com o branco, os índios vêm se enfraquecendo, física e espiritualmente. Com a redução brutal do território, eles passaram a viver enclausurados e tiveram que adaptar seu antigo modo de vida à nova realidade. O resultado dessa transformação involuntária foi o distanciamento das raízes, a perda de hábitos e tradições e o conseqüente empobrecimento cultural. Com o xavante a história não foi diferente. Na década de 1990 a situação chegou a tal ponto que, por motivos internos, alguns membros da família de Cipassé decidiram deixar a aldeia em que estavam, Pimentel Barbosa, para fundar uma nova. A idéia era formar uma aldeia pequena, ali perto, com poucas pessoas, que tentariam retomar o "caminho verdadeiro" - como Cipassé costuma dizer. Resgatando as tradições e ensinando-as para os mais novos, eles teriam condições de recuperar a antiga força espiritual, fortalecer o povo e voltar a viver como a'uwê uptabi (índio verdadeiro) - que é o modo como essa linhagem se autodenomina.

Essa nova aldeia foi fundada em 1996, a 12 km da aldeia Pimentel Barbosa, ao leste da reserva, e chama-se Wederã (Jenipapo). O xavante possui seis reservas, espalhadas por Mato Grosso. São elas: Pimentel Barbosa, São Marcos, Parabubure, Sangradouro, Areões e Marechal Rondon. A reserva Pimentel Barbosa inicia-se por 6 km além da margem direita da rodovia BR-158 (sentido norte), no município de Canarana. Lá existem cinco aldeias - Pimentel Barbosa, Água Branca, Tanguro, Caçula e Wederã - uma população de 1.800 índios, aproximadamente.

Com muita dificuldade, Wederã foi, aos poucos, tentando cumprir o seu objetivo. Cipassé participou de todo o processo, mas ainda não estava morando na aldeia. Por suas características pessoais e até por sua própria história, Cipassé era a pessoa indicada para assumir a função de cacique da aldeia, como havia sido seu avô. Entretanto, por diversos motivos, ele evitara essa responsabilidade. Cipassé sentia que assumir a função seria um peso muito grande e uma responsabilidade para a qual não se considerava preparado ainda. Nesse ponto, a atuação de minha mãe foi importante.

Cipassé, sua mulher, Severiá, minha mãe e Valéria Queiroz, uma amiga que conheceram em Água Boa, juntaram-se e fundaram uma associação para desenvolver e viabilizar projetos para o povo xavante. Era a Aliança dos Povos do Roncador. Em torno dessa associação, os quatro passaram a conviver e a trabalhar diariamente, levantando os problemas, as soluções, enfim, as questões sobre a situação do xavante (especialmente da aldeia Wederã). Entre as ações que deveriam desenvolver, uma era vista como prioritária: a necessidade de Cipassé voltar a morar na aldeia para assumir o posto de cacique. Residindo na Wederã, ele estaria mais próximo da comunidade e do conselho tradicional - formado pelos anciões - e teria melhores condições para realizar o trabalho de resgate da essência da família e das tradições culturais. Esse seria o primeiro passo, caso desse certo, para posteriormente estender o trabalho para outras aldeias e outras reservas xavantes. Uma das pessoas que o ajudaram a se convencer dessa necessidade foi minha mãe. Tanto que, em janeiro de 2002, ele já estava morando na aldeia na condição de cacique.


Pois bem, em junho de 2001, decidi visitá-la em Água Boa e comecei a me programar. Consegui, para julho, duas semanas de férias no trabalho que coincidiram com as férias da faculdade. Depois, foi só dar a boa notícia para a minha mãe, descobrir como se chegava lá e perguntar se eu poderia visitar os índios. Acontece que não é qualquer pessoa que pode entrar na reserva e ir para a aldeia. É preciso que eles tomem conhecimento e autorizem, pois, se alguém entra sem permissão, pode ser perigoso. Após alguns dias recebi a notícia de que permitiram a minha visita. Perfeito! Agora era só concluir os preparativos e embarcar para o Mato Grosso.

Capítulo 2
Embarcando para o Mato Grosso

CONVITES

Na última semana de junho, enquanto orçava as passagens, pensei em quem poderia me acompanhar na empreitada. Eu ainda não sabia o que iria fazer exatamente por aquelas bandas. Mas, com a possibilidade de visitar alguma aldeia indígena, achei que tirar fotos seria uma boa idéia. Então, lembrei de um amigo de São José do Rio Preto, Mauro Henrique, publicitário e fotógrafo, que gostava desse tipo de aventura. Liguei para ele, o entusiasmo foi imediato e Mauro ficou de confirmar.

A outra pessoa que chamei foi por acaso. Eu tenho uma amiga, Fernanda Purchio, com quem volta e meia discuto quem tem a mãe mais "maluca". Ora eu ganho, ora ela ganha. A mãe dela, Clara Coelho, faz peças de cerâmica inspiradas em conceitos indígenas. É um trabalho muito interessante. Fernanda me apresentou Clara no início daquele ano, em um restaurante, e trocamos algumas idéias sobre índios, budismo, Shambhala e outros assuntos impróprios para o local. Quando me lembrei que ela demonstrara interesse em conhecer a região, principalmente a Serra do Roncador, onde está situada a cidade de Água Boa e algumas reservas, comentei com Fernanda, que disse:

- Pablo, por que você não chama a minha mãe?

No começo achei estranho mas, tratando-se de uma viagem tão incomum, falei que telefonaria. Liguei para Clara na tarde seguinte, ela adorou a idéia e ficou de dar resposta. Passados alguns dias, eu já estava com tudo pronto, itinerário, datas, horários e preços. Era só confirmar com eles e fazer as reservas. Mas, por motivos distintos, ambos desistiram e acabei indo sozinho (apesar de que outro telefonema mudaria esse desfecho).
A VIAGEM

Para chegar em Água Boa, de São Paulo, as principais opções são embarcar de ônibus e viajar aproximadamente 27 horas, ou ir de avião até Goiânia e rodar mais 10 horas de estrada (quando esta não se encontra esburacada, como na terceira vez em que fui). Escolhi a segunda opção. No dia 9 de julho de 2001, segunda-feira, embarquei para Goiânia. Após uma hora de vôo, já estava no Centro-Oeste brasileiro, pela primeira vez. Assim que cheguei, entrei num táxi e fui direto para a rodoviária. A pressa tinha motivo: apenas duas companhias faziam o percurso Goiânia-Água Boa e cada uma só tinha um ônibus noturno para lá. Como não era possível reservar antecipadamente, corria sério risco de chegar na rodoviária e ter de passar a noite pelas redondezas, caso os dois veículos estivessem lotados.

Cheguei na rodoviária por volta das 19h30 e fui para o primeiro guichê. Ao perguntar sobre o último ônibus (se não me engano das 21h30) soube que não tinha mais lugar. Meu coração bateu mais forte no trajeto de 2 metros até o guichê da empresa vizinha. Para minha sorte, aquela ainda tinha algumas poltronas vazias, só que o ônibus sairia apenas às 23 horas. Sem problemas! Comprei a passagem, agradeci a todos os meus guias por ter conseguido e liguei para a minha mãe, em Água Boa, avisando que chegaria por volta das 9 horas da manhã. Com a passagem no bolso e bastante aliviado, precisava inventar algo para fazer nas próximas três horas e meia. Como já era noite, descartei um city tour. A principal alternativa, então, seria encostar em algum boteco e tomar algumas cervejas até a hora de partir, mas os estabelecimentos da rodoviária não eram nada animadores. Decidido a encontrar um local melhor, me informei com um taxista e descobri que a construção contígua à rodoviária, que eu pensara ser um supermercado, era um shopping center ainda não inaugurado.

Cheio de malas e completamente desajeitado, dei uma volta à procura de algum lugar para aportar. Seguindo as placas do shopping, vi dezenas de mesas e cadeiras, cercadas de estabelecimentos como lanchonetes e restaurantes. Era uma agradabilíssima praça de alimentação. Deixei as malas num guarda-volumes, sentei numa simpática pastelaria, coloquei o CD Tim Maia Racional - Vol. 1 no disc-man e comecei a bebericar alguns chopes, enquanto observava as belas goianas que circulavam. Minha única preocupação, naquele momento, era não perder o horário do ônibus. E, de fato, não perdi.

Dez chopes e três pastéis depois, não muito alcoolizado mas morrendo de sono, peguei minhas coisas, entrei no ônibus e só acordei após seis horas, quando estava na rodoviária de Barra do Garças, a primeira cidade mato-grossense da BR-158, após a divisa com Goiás. Era a segunda parada da viagem, ideal para se ir ao banheiro, comprar água e evitar comer coxinha. Ao retornar para o ônibus, dormi novamente e só abri os olhos após algumas horas, próximo de uma pequena cidade chamada Nova Xavantina. Como o dia estava amanhecendo não consegui mais dormir. Ainda bem, pois a paisagem era maravilhosa. O contraste que havia entre o céu azul sem nuvens, a terra avermelhada e a vegetação do Cerrado - bastante seca - era impressionante. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma extensa e interminável cadeia de serras que acompanhava paralelamente a estrada. Era linda! Mais tarde fiquei sabendo que aquelas serras faziam parte da famosa e misteriosa Serra do Roncador. Pouco depois, ainda na companhia do Roncador, o ônibus parou em uma pequena rodoviária com cerca de seis plataformas (não me lembro exatamente) e dois bares. Debaixo de um sol forte, desci na rodoviária municipal de Água Boa, meu ponto final.



***
A CASA



Ao contrário do que eu esperava, com base no que a minha mãe falava pelo telefone, a casa dela era muito bacana. Na parte da frente tinha um belo gramado com algumas árvores (incluindo um pé de pitanga e um de maracujá). A casa era em forma de "L", o que proporcionava bastante espaço interno e externo. Entre o jardim e a área construída, ficava o meu lugar preferido. Era uma espécie de varanda. Lá havia algumas cadeiras, uma rede e a mesa de jantar. Era extremamente agradável. Mas ainda era estranho para mim. Apesar de ela já ter vivido em sítios (sempre próximos de São Paulo), eu estava acostumado a morar com ela ou a visitá-la em bairros tipicamente paulistanos como Higienópolis, Moema, Jardins e Itaim-Bibi. E, de repente, o novo lar ficava numa pacata rua sem asfalto, no Mato Grosso, região central do Brasil, e era visitado diariamente por diversos calangos que adoravam o gramado.




Chegando na casa tomamos o tradicional café da manhã de boas-vindas para visitantes, que a minha mãe sempre preparava quando recebia algum hóspede. Mais tarde, Valéria e Stella foram embora e fiquei sozinho com ela. Como estava cansado da viagem, aproveitei para colocar o assunto em dia e descansar um pouco, enquanto aguardava a chegada de Cipassé.
ESCARIFICAÇÃO

Logo que cheguei vi Stella Mendes Gonçalves, minha vizinha de São Paulo que estava passando uns dias em Água Boa, Valéria, amiga da minha mãe que eu ainda não conhecia pessoalmente e, claro, a própria, que me deu um grande susto. Ao me aproximar, vi que estava com a testa inteira riscada, com finos cortes paralelos que iam do início do couro cabeludo até próximo à sobrancelha. Era bem assustador. Após cumprimentar todas, não pude deixar de perguntar, com extrema cautela, o que havia acontecido. Entramos no carro da Valéria e, enquanto percorríamos os cinco quarteirões entre a rodoviária e a casa da minha mãe, ela explicou que aquilo se chamava escarificação. Era um tipo de cura da tradição xavante para diminuir a dor de um determinado local. Eles acreditam que, com esses pequenos cortes superficiais, o sangue sai do corpo levando as toxinas que causam as dores. No caso da minha mãe, ela falou que as dores de cabeça cessaram após a escarificação. Independentemente do êxito, é uma imagem bastante chocante. Não por acaso, a vizinha de Água Boa chegou a perguntar, ironicamente, se ela havia brigado com alguma onça ou outro animal quando esteve na aldeia.
CHOQUE CULTURAL

Eu tinha visto poucos índios pessoalmente na minha vida, quase todos em situações deploráveis - mendigando ou bêbados. Também já havia encontrado alguns em feiras hippies e vendendo artesanato. Mas jamais conhecera um índio próximo de seu contexto, muito menos havia sido apresentado a um. Quando Cipassé chegou, eu e minha mãe estávamos dentro da casa. A campainha tocou e ela comentou:

- Deve ser o Cipassé.

Ela deu uma espiada, viu que era ele e disse para entrar. Empurrando uma bicicleta, o índio abriu o portão, colocou-a para dentro e gritou:

- Ô de casa!

Emendando uma sonora risada.

Cipassé vestia roupas de homem branco (camiseta, calça esportiva e chinelo Havaiana), tinha cara e cabelo de índio e um brinco grosso atravessado em cada orelha, típico do xavante. Quando o vi, fiquei impressionado, pois era um índio de verdade, entrando na casa da minha mãe e fazendo festa. Confesso que não foi uma cena natural para mim. Devo ter sofrido o que chamam de "choque cultural". Achei tudo muito estranho, confuso, mas o que mais me despertou a atenção foi o incrível contraste que ele apresentava. Mesmo não sendo alto, ele parecia um troglodita, de tão forte, e, ao mesmo tempo, lembrava um menino, já que não parava de falar e gargalhar. Quando nos cumprimentamos, percebi que vinte e quatro anos de Brasil e mais 500 de colonização não foram suficientes para me preparar para o meu primeiro contato com um índio. Cipassé foi extremamente simpático e, de coração, após apertar a minha mão, me deu um grande abraço. Eu, surpreso com a espontaneidade do gesto, fiquei sem a menor reação. Parecia um estúpido. Mas, após o abraço, olhei para ele e tive uma sensação maravilhosa, que me deixou emocionado. Eu não sabia se acabara de reencontrar um velho amigo, um irmão mais velho, um mestre, não sei. Foi um encontro muito especial.

Depois de apresentados, sentamos na varanda e conversamos por algum tempo. É claro que eu tinha milhões de perguntas para fazer, mas quem iniciou os questionamentos foi ele: "O que você acha da sua mãe estar morando aqui? E aí, está pronto pra conhecer a aldeia? O que a sua família, em São Paulo, pensa sobre ela estar no Mato Grosso?". E por aí foi. Eu acabei perguntando pouco, mas o papo foi ótimo. Principalmente para começar a quebrar as barreiras inconscientes que eu tinha e a mudar os preconceitos em relação aos índios que estavam enraizados dentro de mim.

Mais tarde, perto da hora do almoço, Stella e Valéria voltaram. Ficamos um pouco em casa e depois fomos almoçar. À tarde passamos na Portal Turismo, agência de viagem na qual Valéria trabalhava. Lá conheci Laranjinha, um dos sócios, uma figura ímpar. Quando falava com a minha mãe de São Paulo, pelo telefone, ela sempre citava esse Laranjinha. Ele foi umas das pessoas que fez a ponte entre ela e os índios e que apresentou diversos lugares da região. Nascido em Crissiumal, no Rio Grande do Sul, se mudou para Água Boa em 1977. Laranjinha tem trânsito livre entre a sociedade local e o povo xavante, e é uma das pessoas que mais conhece aquela parte da Serra do Roncador, incluindo alguns lugares maravilhosos e misteriosos. No restante do dia não fiz nada de muito útil, apenas passeei no centrinho da cidade para ver as mulheres locais, em sua maioria belíssimas descendentes de gaúchas, li e dormi. Mas a grande expectativa era mesmo em relação à data em que iríamos para a aldeia.
CLARA?

O dia seguinte, quarta-feira, foi bastante agitado. Pela manhã, logo que acordei, Valéria, Stella e minha mãe estavam em casa. Antes mesmo de desejar bom dia, perguntaram:

- Pablo, você conhece alguma Clara?
- Conheço, por quê?
- Porque o Marcelo, um arquiteto de São Paulo, que está vindo para a casa da Ely (1), ligou de Goiânia e perguntou se ela conhecia algum Pablo em Água Boa. Ele falou que está vindo com uma amiga de São Paulo chamada Clara e a única referência dela na cidade é um tal de Pablo.

Respondi que conhecia, mas que não deveria ser a mesma pessoa, pois a Clara que eu havia convidado para viajar comigo acabara desistindo. O mistério ficou no ar e eu tinha certeza de que não era ela. Já elas achavam que era a mesma Clara, pois na cidade só havia um Pablo (e ele não devia conhecer muita gente de São Paulo). Ficamos todos com a pulga atrás da orelha. Seria muita coincidência o amigo da Ely estar chegando com a mãe da minha amiga.

Por volta das 11 horas da manhã ligaram da casa da Ely. Os dois chegaram. Nós quatro fomos até lá para conhecê-los e, principalmente, descobrir quem era essa Clara. Chegando na casa, a surpresa: era a mãe da Fernanda, minha amiga. Nós nos cumprimentamos e perguntei o que havia acontecido. Ela respondeu:

- Eu estava colocando algumas roupas para secar no varal, quando o Marcelo, meu amigo, ligou avisando que estava indo para Goiânia. Estranhei Goiânia. Na minha cabeça ainda estava fresca a lembrança da cidade por causa da sua viagem e perguntei o que ele iria fazer lá. Ele disse que, na verdade, estava indo para Água Boa, como arquiteto, para fazer um trabalho para uma amiga de São Paulo. Quando ele falou Água Boa tomei um susto e achei que era muita Água Boa em poucos dias. Perguntei, então, quando ia, e ele respondeu que no final da tarde. Liguei para a Fernanda (que trabalhava numa agência de viagens) e ela comprou a passagem. Não tive nem tempo de explicar ou me despedir direito, deixei as roupas no varal, arrumei a mala e fui para o aeroporto.

Quando ela terminou de contar, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi a disputa entre a Fernanda e eu. A princípio achei que estivesse ganhando no quesito mãe maluca, já que vi a minha com a testa inteira talhada. Mas Clara empatou, e bonito. Ela simplesmente embarcou com o amigo sem saber onde eu estava, o meu telefone e sem fazer idéia de que a Ely poderia me conhecer. Ela sentiu que deveria ir e foi. Independentemente de eu estar lá ou da possibilidade de não me encontrar. Mas, por "sorte", ela viajou com o Marcelo que era hóspede da Ely - amiga nossa.

(1) Ely era sócia da empresa em que a minha mãe trabalhava, em São Paulo, e estava naquela viagem que a fez decidir se mudar para Água Boa, no início do ano. Ely tem uma casa na cidade, a seis quadras da de minha mãe, e estava passando alguns dias com o marido, Zé Carlos.
PREPARAÇÃO MENTAL

Após o inusitado encontro, fomos almoçar e depois retornei à casa para descansar (eu estava um perfeito vagabundo). No final da tarde, Cipassé ligou e se encarregou de colocar um ponto final na minha expectativa em relação à ida para a aldeia, ao mesmo tempo em que acrescentou um pouco mais de emoção naquele agitado dia. Cipassé avisou a minha mãe que iríamos na manhã seguinte, quinta-feira. Ela desligou o telefone e me avisou na hora, toda animada. Eu, com um tremendo sorriso amarelo, respondi:

- Claro! - travando.

Não que eu não quisesse ir para a aldeia, longe disso. Mas não queria ir tão depressa. Eu estava curtindo ficar o dia inteiro sem fazer nada em Água Boa. E aquela notícia repentina fez a minha cabeça ficar a mil por hora. Dúvidas, receios, medos, mais dúvidas, tudo começou a vir à tona. Enquanto minha mãe preparava o jantar, eu a bombardeava com perguntas. Ela estivera diversas vezes na aldeia e sabia bem como era. Então tentei iniciar uma espécie de preparação mental. Aos poucos fui compreendendo melhor como era o esquema e pude relaxar. Após o jantar ela perguntou se eu gostaria de ir até a casa da Ely, onde um pessoal estava reunido. Não fui, preferi ficar em casa.

Por volta das 21 horas, o telefone tocou. Era o meu pai, ligando de São Paulo. Antes mesmo de perguntar como estavam as coisas, ele falou:

- Tá assistindo o jogo do São Paulo? Já está 2 a 0!

Eu, são-paulino roxo, havia me esquecido de que o Tricolor estava disputando a finalíssima da Copa dos Campeões, contra o Flamengo. Como a casa da minha mãe estava sem televisão, nem me lembrei da partida. Aquele tinha tudo para ser um jogo duríssimo, pois o São Paulo havia perdido feio no primeiro encontro e agora precisava ganhar com vários gols de diferença. Mas, vencendo por 2 a 0, ainda no primeiro tempo, tudo era possível. Assim, meu coração tricolor bateu mais forte e não tive dúvida. Liguei para a casa da Ely, perguntei se tinha televisão e como chegava lá. Ela me explicou e, constrangido, subi na bicicleta da minha mãe - uma Caloi Ceci cor-de-rosa com cestinha na frente - e pedalei em alta velocidade pelas alamedas agua-boenses até lá (torcendo, é claro, para que ninguém me visse naquela situação).

Chegando na casa, Ely atendeu a porta, falou que tinha uma turma no terraço do fundo e que era para eu ficar à vontade na sala. Sentei no sofá e sem fazer barulho, o que não foi fácil, assisti a partida. De repente, surgiu uma indiazinha linda de quatro anos de idade. Era Clarinha, xavante, filha de Cipassé. Ela sentou ao meu lado e perguntou, em português, se eu era filho da Ana Maria. Respondi que sim e trocamos algumas palavras. Clarinha estava muito animada e não parava quieta. Ficava um pouco com o pessoal do fundo e depois vinha para a sala, falava comigo, pegava algumas balas na mesa e dizia que era Flamengo. Para alegria dela e total desespero meu, o Mengo começou muito bem o segundo tempo e logo empatou a partida, restando-me fazer a seguinte pergunta:

- O que eu vim fazer aqui?

Puxa vida, deixei o sossego de casa, pedalei em uma bicicleta cor-de-rosa, à noite, só para ver a porcaria do meu time perder mais uma final! Só não fiquei completamente mal-humorado porque Clarinha era divertidíssima e não parava um minuto. Numa das vezes em que ela voltou para a sala, Cipassé veio junto. Ele me cumprimentou e perguntou o placar do jogo. Falei o resultado e notei que ele ficou feliz, já que é flamenguista. Mas o mais engraçado era a situação. A primeira partida entre os dois times, assisti na casa de Dorlan Jr., grande amigo de São Paulo, enchendo a cara de cerveja e churrasco com toda a turma. Agora, quatro dias depois, eu estava em Água Boa, tomando suco de laranja e assistindo à segunda partida ao lado do meu novo amigo índio... e flamenguista.

Com o jogo praticamente definido em favor do adversário, minha atenção voltou-se ao Cipassé. Aproveitando a deixa do futebol, ele falou dos tempos em que jogava em Goiânia, contou do pessoal que joga bola na aldeia e, quando me dei conta, o assunto já era o povo xavante. Eu fazia várias perguntas, Cipassé respondia, contava histórias e, pela primeira vez na minha vida, vi o São Paulo perder uma final sem me alterar (ainda bem que os meus amigos são-paulinos não viram). Quando ele falou sobre a aldeia, as coisas que fazem lá e o que eu poderia esperar da visita, fiquei muito empolgado e ansioso para embarcar. A conversa despertou algo em mim que, de alguma forma, começou a mudar o meu foco sobre aquela viagem e a maneira de enxergar o que estava em volta. E essa mudança foi fundamental para eu compreender o que iria acontecer dali para frente. Mais tarde, na caminhada de volta para casa, debaixo de um belo céu estrelado, percebi que não tinha ido à toa para a casa da Ely, como imaginara, mas para concluir a "preparação mental" que começara à tarde, com a minha mãe.
Capítulo 3
Entrando no Mundo

PREPARATIVOS

No dia seguinte, quinta-feira, acordei cedo. Enquanto tomava café da manhã, ajudava a minha mãe nos preparativos para a viagem. A gente não sabia se iria ficar um ou dois dias na aldeia, já que existia a possibilidade de fazermos um passeio na sexta-feira, a uma gruta. Separamos, então, apenas o que era extremamente necessário: roupas, incluindo calça e casaco, cobertas, rede e alimentos, como pão de forma, atum, maionese, margarina, macarrão e frutas. Apesar do calor forte que faz de dia, é fundamental levar calça, casaco e cobertas para dormir, pois a madrugada, ao contrário, é gelada. E a rede, diferente daquela imagem romântica de que se encontrará na aldeia diversas redes produzidas pelos próprios índios para dormir, lá, quem vai leva a sua.
PÉ NA ESTRADA

Estávamos na parte de fora da casa, conversando, quando chegou uma caminhonete D-20 repleta de índios na carroceria. Cipassé desceu com Clarinha. Após as apresentações carregamos tudo e subimos na carroceria, onde havia de oito a dez índios. Desde jovens até idosos. Ao cumprimentá-los percebi que não falavam português. Eles só mexeram a cabeça, positivamente. Antes de cairmos na estrada, passamos na casa da Ely para buscar Clara e depois na de Valéria para pegá-la e mais Stella, que estava hospedada com ela. Pronto. Todos a bordo, o raio-x do caminhão era o seguinte: Clara, Stella e eu íamos pela primeira vez. Minha mãe e Valéria eram habitués da aldeia. Cipassé e Clarinha, apesar de estarem morando em Água Boa, seguiam para a casa de seus parentes, enquanto os outros índios voltavam para casa. Tentei passar a impressão de que aquela era a situação mais normal do mundo. Mas não era.

O que mais me chamou atenção foi o jeito dos índios conversarem. Eles falavam muito rápido, em xavante, e, de vez em quando, o tom de voz se elevava até estourar em uma grande risada. Para quem está perto e não entende uma palavra, a sensação é de que estão tirando o maior sarro. Mas, conforme Cipassé entrava na conversa e também gargalhava, percebia-se que o motivo da chacota não era a gente, já que ele não faria isso (até faria, mas depois traduziria). Mesmo assim não deixa de ser um pouco constrangedor, até se acostumar. Outra coisa que também impressiona é o olhar das pessoas na rua, ao verem o caminhão cheio de índios e alguns não-índios. É uma mistura de curiosidade, medo e raiva. Como pude perceber nas duas semanas em que fiquei na região, principalmente em Água Boa, a grande maioria da população local não gosta dos índios. E isso se deve, principalmente, à questão da disputa de terra, que já mencionei anteriormente.

Saindo de Água Boa seguimos pela mesma rodovia que eu havia chegado de Goiânia, a BR-158, rumo ao norte. O trecho estava bom, é de asfalto e não tem quase nada em volta. Apenas vegetação do Cerrado e, muito raramente, alguma casinha ou estabelecimento comercial. Depois de passar por Serra Dourada, cidade que está para ser emancipada, e Matinha, um pequeno vilarejo, deixamos a via principal na altura do município de Canarana e entramos à direita, em uma pequena estrada de terra seca, totalmente irregular e esburacada. Dali a 6 km é o início da reserva. Se viajar em uma rodovia na caçamba de um caminhão (dirigido por um índio) não era muito seguro, agora então, tornara-se alto risco, pois a estrada é péssima e não há absolutamente nenhuma perspectiva de ajuda por perto. Tanto a primeira aldeia quanto a última cidade estão muito distantes. O melhor que se tem a fazer é segurar firme em algum lugar e rezar para que tudo dê certo.

Entre as conversas na carroceria, Cipassé me perguntou se eu praticava esporte ou corria bem. Falei que fazia natação, que de vez em quando jogava futebol e squash, mas que não era nenhum atleta. Ele respondeu ótimo e falou que eu participaria de uma competição assim que chegássemos na aldeia. Levei para o lado da brincadeira e disse que não tinha problema. Conforme avançamos para dentro da reserva, a paisagem ficou mais bonita e a quantidade de serras cada vez maior.

Após aproximadamente duas horas e meia de viagem, vi uma construção. A primeira dentro da reserva. Era uma casa normal, de tijolo, onde morava uma família de não-índios. Ao lado havia outra construção, do mesmo tipo. Essas eram, respectivamente, o posto da Funai e a escolinha da aldeia, que também servem de abrigo para visitantes. A caminhonete continuou andando e pude observar uma grande caixa- d’água, onde estava escrito Aldeia Pimentel Barbosa e, por perto, vi vários índios jovens, todos pintados, descalços, sem camisa e com shorts. Eles estavam na estrada, mas o caminhão entrou antes, à esquerda, e seguiu para o pátio da aldeia.
PRIMEIRA IMPRESSÃO

A primeira impressão que tive foi de estar num filme ou num sonho. Não parecia real. Eu não estava no Brasil, muito menos nesse mundo. Era como se eu tivesse voltado no tempo ou que o próprio tempo estivesse parado. Mas era uma sensação ótima, de liberdade, como nunca havia sentido. Não sei por que, mas o fato de ter chegado ali era como se eu tivesse quebrado e deixado uma série de obstáculos para trás, internos e externos, e fosse recompensado por ter conseguido. E a recompensa era justamente ter o privilégio de estar lá e sentir o que estava sentindo.

***


Diferente da imagem que eu tinha, as ocas eram imensas. Altas e grandes. Pelo menos por fora pareciam ser muito espaçosas. Não contei quantas, mas eram várias. Elas ficavam perfiladas lateralmente formando um semicírculo (ou ferradura, como costumam dizer). Ainda em cima do caminhão, vi outro grupo de índios jovens, todos pintados, com shorts amarelo, sem camisa e descalços. O dorso e os braços estavam pintados de vermelho, com massa de urucum, e as canelas estavam pretas, pintadas com carvão. Eles seguiam em fila, como se estivessem marchando, atrás de um índio mais velho que andava levemente agachado, com várias folhas de buriti entrelaçadas nas costas, formando a chamada capa de Nonississurã. Eles o seguiram até sumir da minha vista.

NONI

A caminhonete parou perto de uma grande oca onde estavam várias mulheres e crianças, que cercaram o veículo e fizeram uma grande festa. Quando descemos, fiquei espantado com minha mãe e Valéria, que conheciam todos. Eu ajudei a descarregar algumas bagagens e fiquei próximo do caminhão, já que nosso destino não era essa aldeia, mas a seguinte, Wederã. Em Pimentel Barbosa, a princípio, só íamos parar para deixar os índios que estavam com a gente, descarregar algumas bagagens, pegar Tia Fernanda, mãe do Cipassé, e seguir para a aldeia dele.

Enquanto ajudava a descer os objetos do caminhão, Cipassé me chamou e explicou o que estava acontecendo na aldeia. Tínhamos chegado no meio de um ritual, o Noni. Durante o mês de julho inteiro daquele ano, os jovens participavam de rituais diários, que faziam parte do fechamento de um ciclo. Após aproximadamente cinco anos vivendo na Casa dos Adolescentes, o , eles estavam se formando. Quando o xavante é adolescente, passa a morar numa oca (que fica dentro da aldeia mas separada das demais) e permanece pelos cinco anos seguintes convivendo com outros garotos. Lá, sob a orientação dos padrinhos, eles vivem a adolescência e a juventude preparando-se para a vida adulta através de diversos rituais, muito aprendizado e iniciações. Após esse período, os wapté, como são chamados, se formam, voltam a morar em suas casas e vivem outro processo, o ritéiwá, que é a passagem definitiva para a vida adulta. Essa etapa dura mais alguns anos.

Entre os rituais de formatura dos wapté, existe esse que estava acontecendo, o Noni. Durante um mês, todos os dias, na hora mais fria da manhã e mais quente da tarde, eles disputam corridas. O xavante, por ser um povo guerreiro e totalmente espiritualizado, fundamenta alguns de seus rituais na superação do físico para fortalecer o corpo e o espírito, já que a sobrecarga chega a tal ponto que o esforço transcende o limite dos dois.

Cipassé me contou que o xavante é dividido em grupos. De acordo com o tipo de festa ou ritual que acontece, os grupos são determinados através da idade ou linhagem familiar. Quando os adolescentes estão no , eles se dividem em grupos conforme o clã e competem entre si. Assim que chegamos, Cipassé disse que era do grupo Sada´ro e que eu participaria da corrida pelo grupo Airere. Levei um baita susto mas ao mesmo tempo me senti extremamente honrado. Eu entrei para o Airere porque era justamente a geração que estava se formando naquele momento e tínhamos a faixa etária próxima. Em seguida, Cipassé falou para eu tirar a camiseta e o chinelo. Deixei-os com a Clara e o segui até uma das ocas. Lá, ele amarrou a tradicional e sagrada gravata xavante no meu pescoço. Depois, amarrou duas cordinhas finas, uma branca e uma preta, na minha cintura. Só de bermuda e com os apetrechos xavante, fomos até a caixa-d’água que eu tinha visto na chegada, enquanto ele passava as coordenadas.

O negócio era o seguinte. Na estrada, em baixo da caixa-d’água, era o início da corrida. Quando ele desse o sinal, eu teria de correr o máximo que eu conseguisse pelo pátio da aldeia e atravessá-lo inteiro, até o final, onde ele apontara duas árvores de wedetede. Ao chegar, precisava bater a mão em uma das árvores. O problema é que de onde eu estava, não dava para ver as árvores. Primeiro porque era muito longe, quase 300 metros. Segundo porque minha visão de longas distâncias não é das melhores, por conta de 1,75º de astigmatismo que tenho. Em todo caso, visualizei duas formas que deveriam ser as árvores e concentrei-me. Do meu lado havia poucos índios, uns quatro, mas, de repente, uma fila como aquela que vi na chegada apareceu. Guiados pelo padrinho, eles se posicionaram na minha frente e se prepararam. Após o padrinho fazer alguns movimentos com a capa e falar alguma coisa, um deles disparou e outro, do grupo adversário, foi atrás. Na seqüência, alguns índios os seguiram. Cipassé fez sinal para que eu fosse um pouco à frente. Fiquei ao lado de um índio mais jovem do que eu. Ele devia ter uns 16 anos, no máximo. À espera do sinal e sabendo que a hora estava se aproximando, meu coração acelerou e a adrenalina subiu a níveis exorbitantes, até que:

- Vai!



Corri como nunca havia corrido. O sol estava a pino, o chão, com a terra pegando fogo e cheia de pedrinhas e galhos, parecia que corroía o meu pé. Como eu não tinha noção da distância e muito menos esperava por aquilo, não fiz nenhum plano de corrida.

Simplesmente disparei e pensei em manter o ritmo até o final. Mas conforme eu corria, as árvores não se aproximavam como eu gostaria. Mais ou menos na metade, percebi que estava à frente do meu adversário e reduzi um pouco a velocidade. Não foi boa idéia, ele se aproximou e ficou ao meu lado.

Sem muito o que fazer e com um péssimo retrospecto, afinal eram meus últimos dez anos de cerveja contra uns dezesseis de vida (no máximo), apelei para o único recurso que tinha, um sprint final. Tirei forças não sei de onde e consegui encostar a mão em primeiro lugar na árvore.

Cipassé, minha mãe e o pessoal aplaudiram, enquanto alguns índios não paravam de rir. Principalmente os que estavam no local da chegada, o wedetede, posicionados atrás das árvores e de frente para os "corredores". Esses devem ter visto o meu semblante de desespero e caíram na gargalhada. Após a grande vitória, agachei por uns 15 segundos para tentar voltar a respirar, pois a sensação era de que eu não respirava desde a largada.

Aparentemente recomposto e com o pé dando sinais de que explodiria, caminhei até o meio com ar de dever cumprido, em busca de água. Cipassé acudiu-me com uma garrafa térmica e falou:


- Muito bem! Você correu legal. Agora volta lá que você vai disputar mais uma.

Não esbocei a menor reação (nem mesmo a de desânimo, que traduziria o sentimento). Lentamente, caminhei até o local, bastante atordoado e sem saber exatamente o que esperar. Mas eu tinha uma vantagem: agora já estava experiente e sabia que em hipótese alguma poderia largar daquele jeito, em alta velocidade, pois eu logo cansaria. A estratégia, então, era sair numa boa e, do meio para o final, disparar. Praticamente um "Joaquim Cruz do Cerrado". Com o plano em mente, aguardei o sinal. Como havia muita gente na região da largada e saíam de dois em dois para correr, em curtíssimo espaço de tempo, eu não sabia quem seria o meu adversário. Mas já estava pronto. De repente, ouço o Cipassé:

- Agora!

Com o plano em mente, larguei sem forçar muito e, quando vi, meu adversário já estava a uns 6 metros à frente. Desta vez era da minha idade, talvez poucos anos mais jovem, mas já tinha mais de 20. Vendo que ele disparava, mudei a estratégia e corri o máximo que pude. Foi aí que tudo pesou: a corrida anterior, o pé que parecia estar em carne viva, os dez chopes e três pastéis de Goiânia, os últimos dez anos de churrasco e bebedeira... Resumindo: foi patético. Ele chegou muito antes para alegria total da aldeia, que se divertiu às minhas custas. Quando encostei na árvore, achei que estivesse indo dessa para melhor. O sol, que beirava os 35 ºc, na minha cabeça parecia estar na faixa dos 70 ºc. A terra, então, parecia brasa. Quando olhei para a sola dos meus pés, vi que ganhara uma bela bolha de sangue em cada um.


Mas, independentemente de todo esforço e conseqüente lastimável estado físico, a sensação era maravilhosa. Pensei comigo, quantos não-índios tiveram ou teriam a oportunidade de participar de um ritual tão importante como esse? Feliz e ciente do privilégio que tivera, juntei-me às pessoas e rapidamente fui cercado pelas crianças. Àquela altura, eu já era a atração da aldeia. Não pela minha performance na pista, mas por uma "estranha" característica física. Ao contrário dos índios, que praticamente não possuem pêlos no corpo, eu tenho. E muito. Como eu estava só de bermuda e levemente familiarizado na aldeia, as crianças deixaram a vergonha de lado, me cercaram e puxaram alguns pêlos da perna que, para eles, era algo exótico e divertido. Elas passavam a mão, puxavam e riam. E eu não podia fazer nada. Geneticamente, o índio não tem tanto pêlo. No caso dos xavantes, eles ainda arrancam os poucos que têm com cinza de fogo, a partir dos 3 anos de idade, seguindo o padrão de beleza deles.

"PRESÂN"


Na hora de ir embora, nos despedimos de todos e carregamos a caminhonete. Enquanto eu ajudava, o índio que havia me derrotado na corrida parou do meu lado e entregou-me uma cesta de folha de buriti, que ele mesmo fizera. Achei que fosse para levarmos para a outra aldeia e tentei colocar na carroceria. Mas ele tocou na minha mão, balançou o dedo negativamente e falou algo como "presân". Não entendi e tentei guardar. Novamente ele bateu na minha mão e falou "presân". Só que desta vez apontou para mim. Foi aí que percebi que ele estava tentando dizer "presente". Como eu era visita, havia participado de algo tão importante na aldeia e ele foi a pessoa que competiu comigo e venceu, por livre e espontânea vontade, ele achou que deveria me dar uma lembrança, um presente. Eu, absolutamente sem graça e emocionado, peguei a cesta e dei um grande abraço nele, agradecendo o meu "presân".
Capítulo 4
Descobrindo um Novo Mundo


ROSTOS INCAS

Subimos no caminhão e continuamos a viagem. A estrada era a mesma e os problemas idem - buracos, calor e muito desconforto. Mas, como não estávamos indo para um spa indígena e sim para uma aldeia, tudo fazia parte do contexto.


Na metade do caminho, entre as aldeias Pimentel Barbosa e Wederã, há um ponto fantástico. Muito próximo da estrada há algumas serras, de ambos os lados. Num determinado ponto, duas delas, gigantes, estão paralelamente perfiladas. A impressão que se tem ao passar é que se está deixando tudo para trás e entrando, definitivamente, num outro território. É como se passássemos por um portal invisível. O mais incrível foi quando nos aproximamos e Clara comentou sobre as formas irregulares dessas serras, que muito lembravam os famosos rostos incas que existem nas serras e montes do Peru. Quando Clara falou, todos nós olhamos e vimos o que ela havia enxergado. Era maravilhoso e extremamente forte. Principalmente porque Cipassé, Valéria, Severiá e minha mãe já haviam passado diversas vezes e nunca repararam. Eles já tinham visto outras formas, mas essa associação que fizeram com os rostos incas foi a primeira vez.

ENFIM, WEDERÃ

Após 12 km (a partir da aldeia Pimentel Barbosa) chegamos à Wederã.



Assim que o caminhão entrou no pátio, as crianças nos cercaram. Descemos, fomos apresentados aos parentes do Cipassé e eu, ainda com os pés fritando, ajudei-o a descarregar a bagagem. Nessa primeira visita a Wederã, a aldeia tinha aproximadamente oito ocas grandes e quatro pequenas. Das grandes, sete perfiladas em semicírculo e uma isolada na metade oposta do pátio. Essa última era a escola e todas as outras eram residências. As quatro pequenas eram as cozinhas da aldeia. Quando estávamos na Pimentel Barbosa, cheguei a entrar em uma oca pouco antes da corrida, mas não reparei atentamente como era. Desta vez, ao entrar com mais calma, pude observar melhor. A construção era realmente grande. Quando se falava em oca, a imagem que vinha à minha cabeça era a daquelas cabaninhas que vemos no cinema, como no filme Dança com Lobos ou nos desenhos do Pica-Pau. Mas são enormes, pelo menos aquelas ocas xavantes. Elas devem ter algo em torno de 20 metros de circunferência e uns 20 de altura no ponto mais elevado.



A construção da oca é influenciada pelo estilo das cabanas dos sertanejos e caboclos locais. O esqueleto é formado por grossos troncos de madeira. Um principal, que fica no centro da oca, e outros que são perfilados em volta, inclinando-se para o topo do tronco central. Esses compõem as bases para a parede e o teto. Perpendicular, há diversas tabocas (bambus), que ajudam a sustentar a estrutura. O revestimento, feito de palha de indaiá e de buriti, impede a passagem de luz e ajuda a bloquear tanto o calor quanto o frio (no caso do frio, com menor eficiência).

Entrei na oca do pai do Cipassé, Wazaé, que era a principal liderança da aldeia. A porta era normal, feita de madeira, dividida ao meio. Durante o dia, quando estava calor, só se fechava a parte de baixo para impedir a entrada de cães e galinhas. E à noite, devido ao frio, fechavam-se as duas partes.


Logo na entrada havia uma espécie de biombo. Do lado esquerdo, encostada na parede da oca, ficava a cama de Wazaé e sua mulher, Fernanda. Grande, espaçosa e feita com madeira, taboca e palha de buriti, parecia desconfortável. Na minha segunda visita à aldeia, quando, doente, precisei dormir nela, vi que era apenas a aparência, pois a cama era muito confortável. Do lado direito do biombo havia outra cama e duas redes. A cama era da filha de Wazaé, Narazé, seu marido, Tadeu, e seus filhos. Na cultura xavante, depois do casamento o homem vai morar na oca do pai da mulher. Não é muito comum o uso de rede, que é mais utilizada durante o dia e principalmente pelas crianças. Próximo das paredes ficavam algumas estruturas de madeira que serviam de armários e prateleiras para guardar roupas, alimentos e brinquedos. Na palha que revestia a oca havia diversos objetos pendurados, como pás, facas, martelos e cestas. Essas cestas, feitas por eles com palha de buriti, são muito úteis para carregar e transportar objetos, crianças de colo e também servem para armazenar alimentos e roupas.


Ao entrarmos na oca, Cipassé falou que iríamos todos dormir lá. Achei estranho, pois somando os visitantes e os da casa, éramos mais de dez pessoas, mas, após ajudar a armar as redes, vi o quanto era grande. Depois de tudo pronto, fui até o rio tomar banho. Toda aldeia xavante situa-se à beira de algum rio, pois é lá que eles tomam banho e lavam a roupa e as panelas. Também é o lugar onde brincam as crianças da aldeia. A única coisa que não fazem no rio ou perto dele é xixi e cocô, e aprendem isso desde pequenos. Peguei sabonete, xampu, toalha, roupa limpa e desci até o rio, distante uns 20 metros, atrás da escola, num pequeno barranco. As aldeias xavantes são construídas dessa forma, à beira de um rio e com as casas em semicírculo voltadas para ele. Lá, vendo que não havia ninguém por perto, tirei a roupa e entrei na água. A sensação foi maravilhosa. Permaneci algum tempo no maior sossego e assim que terminei voltei renovado para o pátio da aldeia.

ALIMENTAÇÃO

Aproveitando a última hora de luz natural, ficamos no pátio conversando, tirando algumas fotos e, finalmente, fomos comer. Estávamos desde a manhã sem colocar nada no estômago e a fome era grande. Diferente do que eu pensava, não há uma refeição única e coletiva na aldeia, pois as ocas são independentes. Cada uma possui a sua roça, o seu estoque de comida e as pessoas para alimentar. Não há um horário certo para as refeições e nem mesmo um local comum. Aliás, a questão da falta de comida é um problema sério enfrentado pelo xavante. Desde o início do contato com os brancos, na metade do século passado, os hábitos alimentares mudaram muito e, também, com a redução territorial, a oferta de alimentos na natureza diminuiu consideravelmente. Assim, não é sempre que comem. Mas eles ainda fazem a tradicional caça coletiva, da qual participam todos os homens da aldeia. Nesse caso, quando retornam, o resultado é dividido entre a comunidade inteira. E, dependendo do êxito e da ocasião, que pode coincidir com um evento importante, como um casamento, por exemplo, é realizada uma grande celebração.

No nosso cardápio tinha arroz e peixe, pescado no rio próximo à aldeia. Para acompanhar, pão de fôrma com manteiga e frutas. Com exceção do peixe, levamos tudo. Apesar de cada oca se virar com a própria comida, existem algumas cozinhas comunitárias, que ficam espalhadas entre as ocas. Na parte central da cozinha há uma pequena estrutura onde eles colocam lenha para o fogo. Lá também são armazenados alguns alimentos, a caça e o produto das culturas comuns da aldeia, como mandioca, por exemplo. A mandioca e seus derivados são a base da alimentação xavante. Com ela fazem farinha para comer e, desta farinha, pão e bolo. Já a caça é armazenada de um modo muito peculiar. Como não há energia elétrica para refrigeradores nem caixas de isopor, quando retornam da caça, assam o animal inteiro e assim o conservam por algum tempo. Os xavantes não usam talheres, mas as próprias mãos. Geralmente, aproveitam as poucas sombras que há no pátio, próximas às ocas, e comem sentados no chão ou em cadeirinhas e banquinhos feitos de madeira. Quando está muito quente, ficam dentro da oca para evitar o sol. Aproveitamos que o clima estava fresco e comemos do lado de fora, sentados em um banco encostado à oca, apreciando o maravilhoso pôr-do-sol.

A NOITE

Quando anoiteceu, toda a agitação da aldeia diminuiu. A criançada dorme cedo, logo que o sol se põe, e a partir de então faz muito silêncio. Ainda se ouviam algumas pessoas conversando, crianças falando e chorando dentro das ocas, mas só. O principal som vinha da natureza, dos pássaros e cigarras. O céu na aldeia é o mais fantástico que já vi em toda minha vida. Como ela está em uma reserva de 328 mil hectares, não há luz elétrica por perto, muito menos emissão de poluentes. Sem essas interferências, o que se vê é uma noite absurdamente estrelada, com satélites artificiais e estrelas cadentes passando a todo instante, constelações facilmente identificáveis, a Via Láctea extremamente distinta e a lua iluminando o pátio da aldeia. Para quem aprecia uma bela noite com muito do que o céu tem para mostrar, é fascinante. Principalmente no mês de julho, quando não chove e raramente há nuvens.

Nesse dia, não me lembro por quais razões, não houve o tradicional wa'rã. O wa'rã é a reunião dos anciões pertencentes ao conselho tradicional da aldeia, em volta da fogueira, no centro do pátio, para conversar sobre tudo o que aconteceu no dia e o que está para acontecer nos próximos. Sentados ou deitados em esteiras, eles atualizam os assuntos e tratam das questões que ficaram sem solução. É como se no final de cada dia as pessoas limpassem tudo para que o dia seguinte começasse livre, sem nada pendente. Para mim, esse foi um dos hábitos xavantes, aplicáveis à nossa vida, que mais me chamou a atenção. Como não houve o wa'rã, Wazaé esticou uma esteira de palha de buriti do lado de fora da oca e pediu para Cipassé nos chamar. Clara, Stella, Valéria, minha mãe, Cipassé, Clarinha e eu esticamos algumas esteiras e nos sentamos na frente dele. Debaixo daquele "teto" incrível, ouvindo apenas os sons que vinham da mata e sentindo o cheiro da vegetação seca do Cerrado misturado com o da fumaça de uma pequena fogueira que havia no centro da aldeia, escutamos Wazaé .

Sempre falando em xavante - Cipassé traduzia - ele nos deu as boas-vindas oficiais. Após algumas palavras para todos, Wazaé avisou que falaria especificamente para cada um. Principalmente para Clara, Stella e eu, que estávamos pela primeira vez na aldeia. Quando chegou a minha vez, fiquei totalmente paralisado. Apesar de eu não entender uma palavra, aquilo era tão forte que eu só consegui fechar os olhos e me entregar ao momento. Era realmente muito especial. Depois de Wazaé falar por mais de 30 minutos, Cipassé traduziu o que ele havia dito. Dissera, entre outras coisas, que estava feliz por eu estar lá, que eu não estava à toa na aldeia, que havia uma razão maior, que apreciava muito o trabalho de minha mãe, que ela estaria segura enquanto estivesse lá. Quando terminou de falar com todos, Wazaé deu um abraço em cada um e se recolheu. Nós continuamos lá fora, deitamos nas esteiras e ficamos contemplando o céu, comemorando cada nova estrela cadente que surgia. Devia ser pouco mais de 23 horas, o que é muito tarde na aldeia, quando entramos na oca para dormir. A temperatura havia caído bastante e baixaria mais ainda durante a madrugada, obrigando-me a dormir de calça, meia, camiseta e agasalho. Ao deitar na rede, enrolei-me num cobertor e demorei um pouco até pegar no sono.



No dia seguinte fomos acordados por volta das 6 horas da manhã. A aldeia ainda não se encontrava totalmente desperta, mas já havia um certo movimento. A temperatura estava baixa, mas o céu azul que surgia com o nascer do sol era certeza de mais um dia de intenso calor. Sem comer nada, juntamos nossas coisas, colocamos na caminhonete e nos despedimos do pessoal. Wazaé chamou cada um e nos presenteou com um anel feito com casca de coco. Subimos na carroceria e deixamos a aldeia para trás. Nosso destino era uma gruta que, segundo os índios e as poucas pessoas que a conheciam, era sagrada. Antes fomos até Água Boa, onde estava Severiá, mulher de Cipassé. Ela acabara de chegar de um congresso sobre educação em Barra dos Bugres, no Mato Grosso. Severiá, uma índia Karajá-Javaé, casada com Cipassé desde 1988, é professora, fala português, inglês e um pouco de xavante. Pegamos Severiá e voltamos para a BR-158 até um lugar conhecido como Matinha, o último ponto habitável antes da reserva, onde encontraríamos alguns conhecidos.

***
GRUTA SAGRADA

A Matinha é um pequeno vilarejo à beira da BR-158, 20 km ao sul da entrada da reserva, com um típico botequinho de estrada que quebra o maior galho. Comemos algumas besteiras, enquanto aguardávamos o restante do pessoal. Primeiro chegou um caminhão vindo da Caçula, uma das cinco aldeias xavantes da reserva Pimentel Barbosa. Da caçamba desceram Sibupá, pajé da aldeia Caçula e tio de Cipassé, Ivan, o cacique, e Zé Guimarães. Cipassé os recebeu com um grande abraço e fez as apresentações. Um pouco depois chegou uma Van trazendo o restante do grupo. Lá estavam Ely, Zé Carlos, Clara, Marcelo, o amigo arquiteto que veio com Clara de São Paulo, Seu Paulo Guarani, um índio que mora na região, Tserité, pajé xavante da aldeia São Felipe, e Laranjinha, que seria o nosso guia. Com todos reunidos, entramos na Van e seguimos viagem.

O passeio foi planejado por Zé Carlos. Ele tinha o sonho de juntar Sibupá, Paulo Guarani e Tserité, três grandes forças espirituais da Serra do Roncador que, apesar de se conhecerem, nunca tinham se reunido. E nada melhor do que fazer isso num lugar sagrado. A gruta fica dentro de uma propriedade particular, no município de Cocalinho.

Para chegar, retornamos na BR-158 sentido Água Boa e, pouco depois de passar por Serra Dourada, entramos à esquerda. Seguimos pela MT-346, atravessamos o Rio das Mortes de balsa e, depois de 70 km nessa estrada, chegamos na porta da fazenda. Para entrarmos, Laranjinha pegou a chave com um funcionário que estava nos esperando.

A gruta ficava a uns 7 metros acima do lugar em que paramos a Van. Era extremamente imponente. De onde estávamos, era possível ver apenas o vão principal cercado por diversas árvores. Caminhamos alguns metros e subimos por uma pequena trilha. Quase no topo havia uma cobertura de cimento que lembrava um coreto, só que com uma mesa central e banquinhos em volta. Deixamos nossos pertences e subimos mais um pouco.

Na entrada, fiquei impressionado. A gruta era muito maior do que parecia. A água, ora azul, ora esverdeada, era cristalina e brilhava com os poucos raios de sol que incidiam.

No teto e nas paredes, as estalactites esculpiam formas maravilhosas e algumas um pouco assustadoras. Descemos alguns metros por uma pequena escada lateral e finalmente nos aproximamos da água. Molhei a mão, o rosto e, fascinado com a beleza, perguntei ao Paulo Guarani se poderia tirar algumas fotos. Ele falou que sim, porém dificilmente sairia alguma coisa, já que além de ser muito escuro, era um lugar sagrado. Segundo ele, foram raras as fotos tiradas lá que ficaram boas. Ouvi o conselho mas não resisti. Subi de volta para a cobertura de cimento, peguei minha máquina e bati algumas chapas.


Aos poucos as pessoas foram se ajeitando. Enquanto umas tiravam fotos, outras meditavam, descansavam e, claro, entravam na água. Os três índios mais velhos andaram por umas pedras e se acomodaram numa delas, grande, que ficava bem próximo da água. Eles iniciaram uma longa conversa e ninguém se aproximou. Depois de bater as fotos, resolvi juntar-me aos que estavam nadando. A temperatura da água era agradável, apesar de um pouco fria. Mas como fazia calor, estava ótimo. Atravessamos para o outro lado, onde havia um grande paredão.


Laranjinha nos levou até uma passagem que levava a uma parte interna da gruta. Tomando cuidado com os morcegos, entramos e, mais uma vez, fiquei boquiaberto. Dentro era fascinante, apesar de muito escuro. Com exceção de alguns poucos feixes de luz que passavam pelos buracos das paredes, a fraca iluminação vinha por baixo, através da água transparente. Olhando para o fundo, viam-se claramente as estalagmites. Nas laterais e no fundo de onde estávamos, havia algumas aberturas que davam início a novos corredores, como se fossem câmaras. Sem mencionar detalhes, Laranjinha nos avisou que, em hipótese alguma, poderíamos entrar em qualquer uma delas. Ficamos um tempo contemplando o lugar e tentando decifrar as formas que as estalagmites tomavam. O curioso é que elas lembravam as formas de alguns pontos da Serra do Roncador que havíamos visto ao longo da reserva e da região. Enquanto isso, Cipassé se juntara aos três índios que não paravam de conversar. Algumas pessoas que já haviam saído da água se aproximaram deles e ficaram por perto.


Um pouco antes do final da tarde, retornamos para a cobertura de cimento. Conversamos um pouco até que Sibupá fez uma espécie de fechamento daquele encontro, ressaltando a importância do lugar, a alegria que ele estava sentindo e que era para nós nos sentirmos honrados, já que ali era um local sagrado e não era qualquer pessoa que podia chegar lá e entrar naquelas águas. Além do lugar e do contexto fantástico em que estávamos, o que chamou a minha atenção foi o fato de que do lado de fora da gruta ventava bastante e, mesmo cercada por uma vasta vegetação, nem uma única folha entrou e caiu na água. Era estranho. Depois que Sibupá falou, tiramos algumas fotos com todos reunidos e entramos na Van para voltarmos para Água Boa.

Capítulo 5
O Livro


BENDITA LOUÇA

O sol estava se pondo quando a Van deixou minha mãe e eu em casa. Depois de um necessário banho seguido por um rápido cochilo, acordei com o pessoal entrando em casa. Eram Cipassé, Severiá, Clarinha, Valéria e Stella. Para quebrar a "freqüência energética" em que estávamos, pedimos duas pizzas, algumas cervejas e refrigerantes. Depois de acordar numa aldeia indígena e passar a tarde numa gruta sagrada, curtimos um pouco do "profano", como costumávamos brincar. Após a comilança, fizemos uma pequena avaliação sobre a nossa jornada. Cipassé nos explicou muitas coisas, tirou dúvidas e ajudou a compreendermos a experiência que vivemos.

Na tarde seguinte, sábado, passamos na casa da Ely para nos despedirmos de Clara, Marcelo e Stella, que voltariam para São Paulo. Eu ainda ficaria mais uma semana em Água Boa, mas não retornaria à aldeia. Pelo menos não desta vez. No domingo aproveitei para fazer algo que não fazia há meses (talvez anos) - comer um legítimo almoço dominical feito pela mama. Enquanto ela preparava uma macarronada, fiquei na varanda descansando e tomando uma cervejinha para abrir o apetite. Não demorou muito e Cipassé chegou para almoçar conosco. Eu estava bastante ansioso para conversar com ele, já que na minha cabeça não paravam de surgir dúvidas e novas conclusões sobre a visita à aldeia e toda a viagem. Quando terminamos de comer, Cipassé e eu fomos para a cozinha lavar a louça, onde pudemos conversar bastante sobre vários assuntos. Contei um pouco sobre o meu trabalho, a minha vida em São Paulo, ele falou sobre a gravação que a banda Sepultura fez na aldeia Pimentel Barbosa, a turnê do cd Txai com o Milton Nascimento, entre outras coisas. No meio do papo, Cipassé disse algo que na hora não fez tanto sentido, mas depois, com o passar do tempo, descobri que se referia justamente ao que fui buscar naquela viagem. E, mais importante, era o que balizaria a minha vida dali para frente, resultando, inclusive, neste livro.



Cipassé falou que o meu caminho era o que eu estava seguindo - o de redator. Só que o foco deveria ser outro. Em vez de ficar trancado num escritório escrevendo matérias, criando textos publicitários ou histórias, eu deveria viajar, conhecer novos lugares, pessoas e relatar essas experiências. Na hora, me pareceu pouco viável, mas, conforme absorvi a idéia, fui me sentindo extremamente bem, pois, pela primeira vez, enxerguei algo relacionado ao que eu fazia que poderia me satisfazer plenamente.

Não nos aprofundamos mais no assunto, mas aquilo ficou martelando na minha cabeça. Era como se um novo horizonte se abrisse para mim. E de fato foi o que aconteceu nos meses e anos seguintes. Mas o mais confortante foi saber que a minha viagem para o Mato Grosso fazia muito sentido. Claro que eu já estava feliz demais por tudo o que havia passado e conhecido nos dias em que estive lá. Porém, agora veio a resposta ao que me moveu até a região central do país (pelo menos até aquele momento) - a total insatisfação profissional que eu estava vivendo em São Paulo. Embora tivesse um bom salário e uma agitada vida social, jamais seria feliz e, pior, não via nada que pudesse fazer para melhorar. Agora, apesar de parecer inviável, algo em mim despertou e mudou as perspectivas.
ÚLTIMOS DIAS

Nos meus últimos dias em Água Boa tive bastante contato com Laranjinha, que contou diversas histórias sobre a Serra do Roncador, além de fatos que aconteceram com ele durante suas andanças pela região. Com base no que ouvi e no pouco que vi, li e senti, fiquei absolutamente apaixonado pelo lugar. Histórias reais como as aventuras do coronel Fawcett, nos anos 20, que originou o personagem Indiana Jones; as diversas associações com os incas, maias e astecas; a lagoa sagrada que nunca altera o nível da água; as galerias subterrâneas; as lendas de civilizações intraterrestres, enfim... São segredos e mistérios do Roncador que, não por acaso, atraem pessoas do mundo inteiro.

Também tive alguns sonhos bastante esquisitos. Por duas noites, sonhei que havia um índio muito grande, de quase 2 metros de altura, no quarto. Ele ficava em pé, sempre parado, com uma postura quase militar. Quando começava a sonhar, eu acordava assustado e, ao abrir o olho, via uma silhueta escura, como a do sonho. Claro que eu ficava ainda mais assustado, fechava os olhos e tentava dormir o mais depressa possível. Tive outro sonho que também continuou depois que despertei. Certa noite, sonhei que andava numa rua e via três senhoras, não-índias, bastante idosas. Elas vieram lentamente na minha direção e, a uns 8 metros de distância, deram um salto para cima, se juntaram no ar e se transformaram numa grande bola de luz. Como um cometa, essa luz veio na minha direção e explodiu na barriga. Eu acordei na hora, assustado e, quando me dei conta, estava com uma baita dor de barriga. Passei a noite em claro, indo da cama para o banheiro e vice-versa, até a hora em que consegui voltar a dormir. No dia seguinte, levantei extremamente bem, como se nada tivesse acontecido e com uma disposição impressionante.

No meu último dia na cidade, Cipassé passou em casa para se despedir e entregar alguns presentes. Ele trouxe a gravata xavante que eu havia utilizado na corrida e as duas cordinhas que usei na cintura. Também me deu quatro cordões, dois pretos e dois brancos, que foram amarrados nos meus pulsos (dois em cada). Cipassé me explicou que esses cordões são usados pela sua família toda vez que viajam ou fazem trabalho fora da aldeia (como forma de proteção). Ele viajaria para o interior de São Paulo e seu pai havia lhe dado, mas, como a viagem foi cancelada, Cipassé entregou para mim. Antes de nos despedirmos, contei os sonhos e ele me tranqüilizou, dizendo que a casa da minha mãe era especial (não por acaso antes de ela se mudar já se chamava Casa da Luz) e que aquele índio que vi morava lá e era o "guardião da casa". Achei meio estranha aquela explicação, mas acreditei no meu amigo, pelo menos em respeito à crença dele. Quanto às "senhoras iluminadas" e a conseqüente disenteria, ele falou que eu havia passado por uma limpeza física e espiritual.


O sonho, aliás, é algo extremamente importante e sagrado para o xavante. É através dele que os vivos se comunicam com os antepassados e os mestres espirituais, recebendo avisos, prenúncios, explicações e até novas canções para serem cantadas nos rituais. Eles procuram dormir com o rosto para cima, sem se mexer muito, pois acreditam que facilita a comunicação com esses espíritos. Outro fator importante são os quatro pequenos pedaços de madeira que algumas ocas possuem amarrados no tronco central, sempre voltados para o centro da aldeia. São chamados de wamãri. Diz a tradição que, há muitos anos, dois espíritos, criadores do Cerrado e dos bichos que o habitam, foram mortos por um xavante. Ao morrerem, o sangue que pingou na terra deu origem a uma nova árvore, a wamãri, que nasceu para mostrar que eles eram bons. Desde então, o xavante passou a acreditar que os pequenos pedaços de madeira provenientes dessa árvore servem para protegê-lo e aguçar o sonho. Os pedaços que protegem chamam-se wamãrihurê e os dois do sonho wamãriaue. Na minha segunda viagem tive a oportunidade de viver algumas experiências que só foram esclarecidas através de uma incrível sincronicidade entre os fatos e os sonhos.

***

Wednesday, October 25, 2006

DE VOLTA A SÃO PAULO

Nos primeiros dias em São Paulo estive completamente fora do ar. Os acontecimentos e as imagens da viagem não me saíam da cabeça. Enquanto digeria a experiência, voltei às minhas atividades normais: trabalho, faculdade, natação, festas e bebedeiras. As fotos, incluindo as da gruta, ficaram ótimas. Das pessoas que estiveram comigo no Mato Grosso, mantive mais contato com Stella, minha vizinha. Com Clara falei duas vezes por telefone e com Valéria troquei alguns e-mails. Um deles foi muito especial. Conforme eu havia combinado, mandei uma cópia de cada filme que tirei para o Cipassé. Como chegaram através da minha mãe, várias pessoas as viram, incluindo o Seu Paulo Guarani.

Num dos e-mails que Valéria me mandou, ela parabenizou-me pelas chapas, especialmente as da gruta, e mandou um recado do Seu Paulo, dizendo que ele havia gostado das fotos e que era para eu me sentir muito honrado com o resultado, pois eu havia recebido permissão dos mestres da gruta para que ficassem como ficaram. E o mais interessante foi quando vi as fotos que Stella tirou na gruta. Só apareceram as imagens das pessoas. O fundo, com a água e as estalactites, ficou totalmente escuro, preto. E as minhas ficaram perfeitas, com todas as cores e detalhes. Claro que isso pode ter diversas explicações, como a qualidade das máquinas e dos filmes. Inclusive porque já vi chapas de um fotógrafo rio-pretense do mesmo local. Mas vale o registro.

GRANDE HONRA

Com Cipassé tive mais contato, só que indiretamente, através da minha mãe, que mandava notícias e recados. Com o passar dos meses, o contexto da viagem esfriou, até que em uma tarde de outubro ela ligou de Água Boa com uma grande notícia:

- Sabe o que é, filho, o Apowe, avô do Cipassé, que foi um dos xavantes mais importantes do século passado, morreu há uns 25 anos, e há 20 eles procuram alguém para escrever a história dele. Há alguns anos escolheram uma pessoa, mas parece que não deu muito certo. Dias atrás o Cipassé teve uma intuição de que você talvez pudesse escrever esse livro. Ele levou a idéia para o pai dele e os tios (os filhos do Apowe), que aprovaram. E depois levou para Sibupá, que não só concordou como também enviou um medalhão de luz para fortalecê-lo. Agora o Cipassé quer saber se você aceita escrever o livro.



Sem palavras do outro lado da linha, não consegui pronunciar um simples sim. Claro que eu aceitaria, mas a emoção era tão grande que não consegui falar nada. Depois de passado o impacto, respondi positivamente e pedi mais detalhes. Assim que desligamos, comecei a pensar a respeito. Antes de mais nada, estava claro que aquela era a maior honra de toda a minha vida. Sentia-me ainda mais honrado por saber que me escolheram sem nunca terem lido um texto meu e que o xavante não faz nada importante sem antes consultar suas bases espirituais. Mas havia um problema nessa história: quando eu iria escrevê-lo e como? Eu tinha o meu trabalho e estava preso à faculdade. Sem muita opção e conhecendo a maneira como as coisas acontecem com o xavante - tudo no seu tempo - não me preocupei e deixei acontecer naturalmente.
MUDANÇAS

Um mês depois, em novembro, houve uma grande reformulação na produtora e o meu trabalho mudou completamente. Em vez de cd-rom para crianças, começamos a produzir cd-rom sobre a história dos principais clubes de futebol do Brasil e eu fiquei encarregado de todo o conteúdo. Achei ótimo, primeiro porque não agüentava mais as historinhas infantis, segundo porque adoro futebol. E o curioso é que as minhas novas atividades iam ao encontro do que Cipassé me havia dito em Água Boa. O primeiro clube foi o Santos e, por várias vezes, desci até a cidade, visitei a Vila Belmiro, conversei com funcionários, ex-jogadores, historiadores, enfim, fiz o que ele disse que seria bom para mim. Isso me possibilitou respirar novos ares e ter uma nova perspectiva profissional. No primeiro semestre do ano seguinte, em 2002, continuei o trabalho, agora sobre o Corinthians, depois o Palmeiras e indo ao Rio de Janeiro para escrever sobre o Flamengo. Enquanto isso, na faculdade, iniciei o Trabalho de Conclusão de Curso, já que estava no último ano. Com tantas coisas, não consegui sequer pensar no livro.

No final de maio as coisas mudaram ainda mais. Enfrentando problemas financeiros, a produtora dispensou quase todos os funcionários. Eu continuei com eles, só que na condição de free-lance. Com muito mais tempo e menos carga de trabalho, resolvi que era a hora de fazer as coisas à minha maneira. A primeira atitude foi embarcar para Buenos Aires com um amigo, Xixo, e ficar uma semana vagabundeando na Argentina, em pleno auge da maior crise econômica da história dos nossos hermanos. Quando voltei, executei um novo projeto para a produtora, também na área de futebol, que durou um mês. No início de julho, sem trabalho fixo, com o convite para escrever o livro e de férias da faculdade, não tive dúvida. Fiz o mesmo itinerário do ano anterior e, ao invés de descer em Água Boa, fiquei mais uma hora no ônibus e desci em Serra Dourada, onde minha mãe estava morando.
Capítulo 6
A Segunda (e quase última) Viagem

SERRA DOURADA

Serra Dourada é um vilarejo à beira da br-158, 45 km depois de Água Boa - sentido Norte, que, até o final de 2003, ainda não havia se emancipado. Na época tinha apenas 400 habitantes, sendo que um deles era a minha mãe. Ela e Valéria compraram uma casinha bastante modesta, bem próxima à rodovia. Quando cheguei lá, Valéria havia se mudado e minha mãe estava sozinha. Ao contrário da casa de Água Boa, que era agradabilíssima, essa era muito sombria. Serra Dourada era uma espécie de vilarejo fantasma, com quase nenhum movimento de pessoas, apenas de caminhões e poucos carros. A casa era paupérrima, sem forro no teto e pintada de um azul claro, feio e velho. O que salvava era a sempre aconchegante decoração da minha mãe e algumas peculiaridades que destoavam do local, como o jogo de talheres de prata e a toalha de mesa de linho do enxoval da minha vó. Mas havia um motivo pelo qual minha mãe e Valéria haviam comprado aquela casa: a localização.



Quem as ajudou a escolher o lugar foi Cipassé. Depois que encontraram a casa, ele foi até lá, olhou o lugar e deu o aval para o negócio ser fechado. Quando falo na localização não estou me referindo à beira da rodovia, mas à parte de trás do terreno. No fundo da casa havia um quintal com quatro mangueiras enormes no centro. Embaixo, uma mesa e alguns bancos. No final do terreno, iniciava-se a propriedade do vizinho e, a pouquíssimos metros, um gigantesco vale, muito extenso, que já fazia parte da aldeia xavante Água Branca. Nesse vale, bem na frente do quintal, havia um monte lindo, o Ararat, famoso na região por suas lendas e citações bíblicas, e do lado direito do terreno, uma serra igualmente grande e imponente. Acordar, abrir a janela do quarto e ver aquela paisagem, compensava a total falta de estrutura do vilarejo e a precariedade da casa.

LEISHMANIOSE

Cheguei em Serra Dourada numa terça-feira, 9 de julho de 2002. Até sexta-feira não fiz absolutamente nada. Fiquei só descansando, lendo e curtindo a vista. Nem mesmo uma cervejinha tive vontade de tomar. Com a possibilidade de ir a qualquer momento para a aldeia e a pouca empolgação que o local proporcionava, fiquei quieto. Mas algo estava me preocupando: minha mãe. Ela havia sido picada por um inseto na perna direita, entre a canela e o joelho, e a cada dia piorava. Na quinta-feira, Helena, amiga dela e enfermeira do único posto de saúde de Serra Dourada, foi em casa. Minha mãe a chamou para que desse uma olhada na perna. Eu estava no quarto quando ouvi o diagnóstico:

- Xiiiiiiii, parece Bauru.
- Bauru?
- Isso, picada de Bauru.
- Eu nunca ouvi falar nesse Bauru. É grave?
- É complicadíssimo, ele entra na pele e vai comendo tudo por dentro.
- Meu Deus! E tem algum remédio ou algo que eu possa fazer?
- Tem. Além de alguns remédios, você precisa tomar uma injeção de antibiótico por dia durante cinqüenta dias.

Por razões óbvias minha mãe ficou completamente transtornada. Ela tinha a esperança de que aquele diagnóstico pudesse estar errado ou um pouco exagerado, mas a enfermeira conhecia bem os insetos do lugar e o estrago que podiam causar. No dia seguinte, sexta-feira, Cipassé chegou acompanhado de seu pai, Wazaé, mais Severiá e Clarinha. Ele olhou a perna e também concluiu que era o Bauru, só que deu o nome da doença: leishmaniose.

A leishmaniose é uma doença causada por protozoários da espécie Leishmânia, que pode atacar a pele (leishmaniose cutânea), as mucosas (leishmaniose muco-cutânea) e os órgãos internos (leishmaniose visceral). A doença existe no mundo todo e é transmitida pela picada de certos mosquitos (Phlebotomus). Os hospedeiros desses protozoários são os macacos, os roedores, as preguiças e os canídeos, entre outros. O mosquito pica esses animais, adquire o protozoário e, ao picar o homem, transmite a enfermidade. No Brasil também existe a Leishmania brasiliensis. Por aqui a doença é popularmente conhecida por alguns nomes como úlcera de Bauru e ferida brava. Atualmente o tratamento é feito com diversos quimioterápicos fornecidos pelo governo.

Qualquer pessoa em sã consciência ficaria em casa fazendo o tratamento ou iria para uma cidade maior onde pudesse se cuidar com mais segurança. Porém, sã consciência não é uma palavra muito comum no dicionário da minha mãe e ela enfiou na cabeça que queria se curar com os índios. Se fosse há décadas atrás, quando, no caso do xavante, ainda não havia sido feito o contato com o branco e, portanto, eles ainda não tinham as nossas doenças, tudo bem. Mas agora eles contraem as mesmas doenças, se medicam com os nossos remédios e em nossos hospitais. Com isso, eles se enfraqueceram demais e perderam quase que por completo o maravilhoso dom que tinham de curar-se através das ervas, plantas e raízes.

Mesmo assim, minha mãe bateu o pé e disse que se trataria na aldeia. Ela perguntou para Cipassé e Wazaé se poderiam curá-la e eles responderam que tentariam, apesar de a medicina não ser o forte da família. Minha mãe reforçou: "Eu acredito na medicina a’uwê". Wazaé, então, levantou-se e foi até a cerca lateral da casa, que fazia divisa com o Cerrado. Ele permaneceu de pé olhando para a vegetação por alguns minutos, até que decidiu entrar e sumiu de vista. Quando reapareceu, Wazaé estava com algumas raízes na mão. Colocou-as numa sacola plástica, pediu um pouco de água e fez uma mistura. O resultado era uma pasta formada por um pozinho preto, levemente umedecido. Com cuidado, ele aplicou-a na ferida, fez um pequeno curativo e protegeu o local com uma faixa.
FOGUEIRA SAGRADA

Mais tarde jantamos do lado de fora da casa e ficamos no quintal. Wazaé armou uma rede na árvore, levamos cobertor e era lá que ele dormiria mais tarde. Antes, resolvemos acender uma fogueira para conversarmos um pouco, já que o céu estava belíssimo e a noite, por conta da deslumbrante paisagem, ganhara ares especiais. Fui com Cipassé até a mata e ele falou que iríamos fazer uma fogueira sagrada, grande, bem ao estilo "xavante piromaníaco" (o xavante é incapaz de fazer fogueira com menos de 2 metros de altura). Clarinha ficou dormindo dentro da casa enquanto conversávamos em volta do "fogo sagrado". Com a rara oportunidade de estar com Wazaé num local, digamos, neutro, e sem muitas pessoas, aproveitei para fazer algumas perguntas um pouco mais ousadas do que o normal, como, por exemplo: Qual era o segredo da Serra do Roncador? Qual era o verdadeiro papel do xavante no Cerrado e no Roncador? Qual era a verdade sobre as histórias das luzes e sons que saíam de algumas serras do Roncador? Ele respondia alguma coisa em xavante, e o Cipassé, naturalmente, nos enrolava na tradução.

Em determinado momento a fogueira começou a ficar estranha. Conforme o fogo queimava, os troncos e galhos ganhavam formas esquisitas, como de cobras, lagartos e outros seres. Sempre com feição má. Nas pontas surgiam pequenos furos, como se fossem olhos, e um pouco abaixo apareciam alguns cortes dando a impressão de que eram bocas. Eu não havia tomado nada de álcool, muito menos me drogado ou ingerido alguma substância alucinógena, mas que eu via vários seres esquisitos eu não tenho dúvida. Para piorar, quase todas as formas olhavam para mim. A coincidência passou a incomodar-me e comentei em voz alta. Minha mãe viu na hora e ficou impressionada. Cipassé também notou, comentou com Wazaé e depois falou:

- Eu não disse? Fogueira sagrada é assim. Está queimando todas as energias negativas daqui.
- Mas por que estão olhando para mim? - perguntei.
- Não, isso é só coincidência.


A explicação me tranqüilizou mas, conforme a noite avançava e o fogo queimava, mais e mais seres apareciam nos troncos, sempre me olhando. De vez em quando um vento soprava na fogueira, fazendo um barulho agudo bastante assustador, ao mesmo tempo em que se levantava uma grande fumaça, veloz, muitas vezes saindo dos buracos que pareciam ser os olhos e as bocas. Para mim aquela história de fogueira sagrada começou a ficar sem graça, principalmente porque não adiantava nem mexer na madeira pois, independentemente da posição, sempre apareciam novos seres, quase todos me encarando. Ficou insuportável! Por volta da meia-noite todos estávamos com sono, especialmente Wazaé, e resolvemos dormir, já que na manhã seguinte, bem cedo, seguiríamos para a aldeia.
O QUASE ACIDENTE

Fui para a cama bastante intrigado com o que tinha visto. Às oito e meia da manhã de sábado, dia 13 de julho, chegou o carro com três índios da aldeia Pimentel Barbosa. Não sei qual era o modelo do veículo, mas era uma espécie de caminhonete, com espaço para três pessoas na cabine e de seis a oito na parte de trás, que era fechada. Colocamos nossa bagagem e fomos para trás. A viagem foi normal até o momento em que entramos na reserva, quando o motorista começou a fazer algumas barbeiragens. Eu estava do lado da janela direita e, por várias vezes, ao passar rente à mata, alguns galhos entraram pelo vidro e quase me acertaram. Como a estrada era muito ruim, o carro pulava bastante. Eu, por ser o mais jovem, não estava bem posicionado e caía demais para os lados. Minha mãe começou a ficar nervosa, não sei se comigo ou com o motorista, mas ela gritou para eu sentar direito, segurar firme, coisas de mãe. Mas não dava. Eu estava fazendo o possível para me equilibrar. A viagem tornou-se absolutamente desagradável e estressante. Por várias vezes Cipassé bateu no vidro e falou para o motorista ir devagar e até se ofereceu para dirigir. Nós também pedimos para ele assumir o volante, mas o condutor não permitiu. Eu já estava ficando irritado, principalmente porque tudo acontecia comigo. Até que o motorista foi desviar de um buraco, acabou entrando em outro e, para sair, deu uma ré inconseqüente. Nesse momento, um grosso galho de árvore quase atravessou o vidro e acertou a minha cabeça, escapei por questão de milímetros. Para piorar, o carro quase caiu num pequeno declive à margem da estrada, também do meu lado. Para mim foi o limite. Perguntei se estávamos perto da aldeia, Cipassé respondeu que faltavam uns 8 km.

- Ótimo! Vou a pé. - respondi e desci do carro.



Wazaé, que não fala português, levantou-se imediatamente e também saiu. Todos os outros fizeram o mesmo: Cipassé, Severiá, Clarinha e minha mãe. Cipassé avisou o motorista que não estávamos bem e que iríamos caminhando. O carro seguiu e fomos andando aliviados, levando conosco somente água e bolsas leves.


Após mais de uma hora de caminhada, bem próximo da aldeia, um movimento intenso de índios, principalmente jovens e crianças, chamou nossa atenção. Ao nos aproximarmos, vimos o carro parado no meio da estrada. Nem quisemos saber o que havia acontecido, seguimos até a aldeia Pimentel Barbosa para Cipassé providenciar carona, pois ainda tínhamos mais 12 km até a Wederã. Depois de uns quinze minutos um outro índio apareceu com o mesmo carro e nos levou até a aldeia do Cipassé. Mais uma vez, fiquei no pior lugar, mas agora dei um jeito de me segurar. Fiquei na parte mais extrema do carro, de costas para todos e deitado na direção da janela traseira. Conforme o veículo avançava pela reserva, tive algumas sensações estranhas. Fiquei um pouco tonto e parecia que a minha vista estava um pouco desfocada. Eu não conseguia ver claramente a mata que ficava para trás, pois estava tudo levemente embaçado. Mas o importante é que chegamos e bem.

Ao entrarmos na aldeia Wederã fomos recebidos com grande festa, especialmente Wazaé, que estava fora há alguns dias. Por ser minha segunda visita, cumprimentei todos com um pouco mais de intimidade. Ao observar a aldeia notei uma oca nova. Na verdade, apenas o esqueleto. Essa, depois de concluída, seria de Cipassé. Enquanto isso, ele e sua família ficavam na casa de seu pai, Wazaé, e era lá que eu e minha mãe também dormiríamos.