NONIA caminhonete parou perto de uma grande oca onde estavam várias mulheres e crianças, que cercaram o veículo e fizeram uma grande festa. Quando descemos, fiquei espantado com minha mãe e Valéria, que conheciam todos. Eu ajudei a descarregar algumas bagagens e fiquei próximo do caminhão, já que nosso destino não era essa aldeia, mas a seguinte,
Wederã. Em Pimentel Barbosa, a princípio, só íamos parar para deixar os índios que estavam com a gente, descarregar algumas bagagens, pegar Tia Fernanda, mãe do
Cipassé, e seguir para a aldeia dele.
Enquanto ajudava a descer os objetos do caminhão,
Cipassé me chamou e explicou o que estava acontecendo na aldeia. Tínhamos chegado no meio de um ritual, o
Noni. Durante o mês de julho inteiro daquele ano, os jovens participavam de rituais diários, que faziam parte do fechamento de um ciclo. Após aproximadamente cinco anos vivendo na Casa dos Adolescentes, o
Hö, eles estavam se formando. Quando o xavante é adolescente, passa a morar numa oca (que fica dentro da aldeia mas separada das demais) e permanece pelos cinco anos seguintes convivendo com outros garotos. Lá, sob a orientação dos padrinhos, eles vivem a adolescência e a juventude preparando-se para a vida adulta através de diversos rituais, muito aprendizado e iniciações. Após esse período, os
wapté, como são chamados, se formam, voltam a morar em suas casas e vivem outro processo, o
ritéiwá, que é a passagem definitiva para a vida adulta. Essa etapa dura mais alguns anos.
Entre os rituais de formatura dos
wapté, existe esse que estava acontecendo, o
Noni. Durante um mês, todos os dias, na hora mais fria da manhã e mais quente da tarde, eles disputam corridas. O xavante, por ser um povo guerreiro e totalmente espiritualizado, fundamenta alguns de seus rituais na superação do físico para fortalecer o corpo e o espírito, já que a sobrecarga chega a tal ponto que o esforço transcende o limite dos dois.
Cipassé me contou que o xavante é dividido em grupos. De acordo com o tipo de festa ou ritual que acontece, os grupos são determinados através da idade ou linhagem familiar. Quando os adolescentes estão no
Hö, eles se dividem em grupos conforme o clã e competem entre si. Assim que chegamos,
Cipassé disse que era do grupo
Sada´ro e que eu participaria da corrida pelo grupo
Airere. Levei um baita susto mas ao mesmo tempo me senti extremamente honrado. Eu entrei para o
Airere porque era justamente a geração que estava se formando naquele momento e tínhamos a faixa etária próxima. Em seguida,
Cipassé falou para eu tirar a camiseta e o chinelo. Deixei-os com a Clara e o segui até uma das ocas. Lá, ele amarrou a tradicional e sagrada gravata xavante no meu pescoço. Depois, amarrou duas cordinhas finas, uma branca e uma preta, na minha cintura. Só de bermuda e com os apetrechos xavante, fomos até a caixa-d’água que eu tinha visto na chegada, enquanto ele passava as coordenadas.
O negócio era o seguinte. Na estrada, em baixo da caixa-d’água, era o início da corrida. Quando ele desse o sinal, eu teria de correr o máximo que eu conseguisse pelo pátio da aldeia e atravessá-lo inteiro, até o final, onde ele apontara duas árvores de
wedetede. Ao chegar, precisava bater a mão em uma das árvores. O problema é que de onde eu estava, não dava para ver as árvores. Primeiro porque era muito longe, quase 300 metros. Segundo porque minha visão de longas distâncias não é das melhores, por conta de 1,75º de astigmatismo que tenho. Em todo caso, visualizei duas formas que deveriam ser as árvores e concentrei-me. Do meu lado havia poucos índios, uns quatro, mas, de repente, uma fila como aquela que vi na chegada apareceu. Guiados pelo padrinho, eles se posicionaram na minha frente e se prepararam. Após o padrinho fazer alguns movimentos com a capa e falar alguma coisa, um deles disparou e outro, do grupo adversário, foi atrás. Na seqüência, alguns índios os seguiram.
Cipassé fez sinal para que eu fosse um pouco à frente. Fiquei ao lado de um índio mais jovem do que eu. Ele devia ter uns 16 anos, no máximo. À espera do sinal e sabendo que a hora estava se aproximando, meu coração acelerou e a adrenalina subiu a níveis exorbitantes, até que:
- Vai!

Corri como nunca havia corrido. O sol estava a pino, o chão, com a terra pegando fogo e cheia de pedrinhas e galhos, parecia que corroía o meu pé. Como eu não tinha noção da distância e muito menos esperava por aquilo, não fiz nenhum plano de corrida.

Simplesmente disparei e pensei em manter o ritmo até o final. Mas conforme eu corria, as árvores não se aproximavam como eu gostaria. Mais ou menos na metade, percebi que estava à frente do meu adversário e reduzi um pouco a velocidade. Não foi boa idéia, ele se aproximou e ficou ao meu lado.

Sem muito o que fazer e com um péssimo retrospecto, afinal eram meus últimos dez anos de cerveja contra uns dezesseis de vida (no máximo), apelei para o único recurso que tinha, um sprint final. Tirei forças não sei de onde e consegui encostar a mão em primeiro lugar na árvore.

Cipassé, minha mãe e o pessoal aplaudiram, enquanto alguns índios não paravam de rir. Principalmente os que estavam no local da chegada, o wedetede, posicionados atrás das árvores e de frente para os "corredores". Esses devem ter visto o meu semblante de desespero e caíram na gargalhada. Após a grande vitória, agachei por uns 15 segundos para tentar voltar a respirar, pois a sensação era de que eu não respirava desde a largada.

Aparentemente recomposto e com o pé dando sinais de que explodiria, caminhei até o meio com ar de dever cumprido, em busca de água. Cipassé acudiu-me com uma garrafa térmica e falou:

- Muito bem! Você correu legal. Agora volta lá que você vai disputar mais uma.
Não esbocei a menor reação (nem mesmo a de desânimo, que traduziria o sentimento). Lentamente, caminhei até o local, bastante atordoado e sem saber exatamente o que esperar. Mas eu tinha uma vantagem: agora já estava experiente e sabia que em hipótese alguma poderia largar daquele jeito, em alta velocidade, pois eu logo cansaria. A estratégia, então, era sair numa boa e, do meio para o final, disparar. Praticamente um "Joaquim Cruz do Cerrado". Com o plano em mente, aguardei o sinal. Como havia muita gente na região da largada e saíam de dois em dois para correr, em curtíssimo espaço de tempo, eu não sabia quem seria o meu adversário. Mas já estava pronto. De repente, ouço o Cipassé:
- Agora!
Com o plano em mente, larguei sem forçar muito e, quando vi, meu adversário já estava a uns 6 metros à frente. Desta vez era da minha idade, talvez poucos anos mais jovem, mas já tinha mais de 20. Vendo que ele disparava, mudei a estratégia e corri o máximo que pude. Foi aí que tudo pesou: a corrida anterior, o pé que parecia estar em carne viva, os dez chopes e três pastéis de Goiânia, os últimos dez anos de churrasco e bebedeira... Resumindo: foi patético. Ele chegou muito antes para alegria total da aldeia, que se divertiu às minhas custas. Quando encostei na árvore, achei que estivesse indo dessa para melhor. O sol, que beirava os 35 ºc, na minha cabeça parecia estar na faixa dos 70 ºc. A terra, então, parecia brasa. Quando olhei para a sola dos meus pés, vi que ganhara uma bela bolha de sangue em cada um.

Mas, independentemente de todo esforço e conseqüente lastimável estado físico, a sensação era maravilhosa. Pensei comigo, quantos não-índios tiveram ou teriam a oportunidade de participar de um ritual tão importante como esse? Feliz e ciente do privilégio que tivera, juntei-me às pessoas e rapidamente fui cercado pelas crianças. Àquela altura, eu já era a atração da aldeia. Não pela minha performance na pista, mas por uma "estranha" característica física. Ao contrário dos índios, que praticamente não possuem pêlos no corpo, eu tenho. E muito. Como eu estava só de bermuda e levemente familiarizado na aldeia, as crianças deixaram a vergonha de lado, me cercaram e puxaram alguns pêlos da perna que, para eles, era algo exótico e divertido. Elas passavam a mão, puxavam e riam. E eu não podia fazer nada. Geneticamente, o índio não tem tanto pêlo. No caso dos xavantes, eles ainda arrancam os poucos que têm com cinza de fogo, a partir dos 3 anos de idade, seguindo o padrão de beleza deles.