Thursday, October 26, 2006

CHOQUE CULTURAL

Eu tinha visto poucos índios pessoalmente na minha vida, quase todos em situações deploráveis - mendigando ou bêbados. Também já havia encontrado alguns em feiras hippies e vendendo artesanato. Mas jamais conhecera um índio próximo de seu contexto, muito menos havia sido apresentado a um. Quando Cipassé chegou, eu e minha mãe estávamos dentro da casa. A campainha tocou e ela comentou:

- Deve ser o Cipassé.

Ela deu uma espiada, viu que era ele e disse para entrar. Empurrando uma bicicleta, o índio abriu o portão, colocou-a para dentro e gritou:

- Ô de casa!

Emendando uma sonora risada.

Cipassé vestia roupas de homem branco (camiseta, calça esportiva e chinelo Havaiana), tinha cara e cabelo de índio e um brinco grosso atravessado em cada orelha, típico do xavante. Quando o vi, fiquei impressionado, pois era um índio de verdade, entrando na casa da minha mãe e fazendo festa. Confesso que não foi uma cena natural para mim. Devo ter sofrido o que chamam de "choque cultural". Achei tudo muito estranho, confuso, mas o que mais me despertou a atenção foi o incrível contraste que ele apresentava. Mesmo não sendo alto, ele parecia um troglodita, de tão forte, e, ao mesmo tempo, lembrava um menino, já que não parava de falar e gargalhar. Quando nos cumprimentamos, percebi que vinte e quatro anos de Brasil e mais 500 de colonização não foram suficientes para me preparar para o meu primeiro contato com um índio. Cipassé foi extremamente simpático e, de coração, após apertar a minha mão, me deu um grande abraço. Eu, surpreso com a espontaneidade do gesto, fiquei sem a menor reação. Parecia um estúpido. Mas, após o abraço, olhei para ele e tive uma sensação maravilhosa, que me deixou emocionado. Eu não sabia se acabara de reencontrar um velho amigo, um irmão mais velho, um mestre, não sei. Foi um encontro muito especial.

Depois de apresentados, sentamos na varanda e conversamos por algum tempo. É claro que eu tinha milhões de perguntas para fazer, mas quem iniciou os questionamentos foi ele: "O que você acha da sua mãe estar morando aqui? E aí, está pronto pra conhecer a aldeia? O que a sua família, em São Paulo, pensa sobre ela estar no Mato Grosso?". E por aí foi. Eu acabei perguntando pouco, mas o papo foi ótimo. Principalmente para começar a quebrar as barreiras inconscientes que eu tinha e a mudar os preconceitos em relação aos índios que estavam enraizados dentro de mim.

Mais tarde, perto da hora do almoço, Stella e Valéria voltaram. Ficamos um pouco em casa e depois fomos almoçar. À tarde passamos na Portal Turismo, agência de viagem na qual Valéria trabalhava. Lá conheci Laranjinha, um dos sócios, uma figura ímpar. Quando falava com a minha mãe de São Paulo, pelo telefone, ela sempre citava esse Laranjinha. Ele foi umas das pessoas que fez a ponte entre ela e os índios e que apresentou diversos lugares da região. Nascido em Crissiumal, no Rio Grande do Sul, se mudou para Água Boa em 1977. Laranjinha tem trânsito livre entre a sociedade local e o povo xavante, e é uma das pessoas que mais conhece aquela parte da Serra do Roncador, incluindo alguns lugares maravilhosos e misteriosos. No restante do dia não fiz nada de muito útil, apenas passeei no centrinho da cidade para ver as mulheres locais, em sua maioria belíssimas descendentes de gaúchas, li e dormi. Mas a grande expectativa era mesmo em relação à data em que iríamos para a aldeia.

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